Entrevista: Carol Chevalier, mãe de gêmeos!

Lembro exatamente como conheci a Carol. Passei a segui-la no Instagram, mas devido a diferença de idade do meu filho e dos gêmeos, nunca interagi ou li muito. Um dia em um evento materno a vi, me abaixei para falar com um dos gêmeos e ela já estava lá, sentada no chão. Trocamos duas palavras e eu só conseguia pensar: “Conheço ela de algum lugar, será que estudamos juntas?” Fiquei lá tentando acessar meu cérebro (desde então desmemoriado) para achar a resposta.

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Fui para casa, publiquei fotos do evento (inclusive a que ela tirou com a Dani, sua irmã) e quando vi, ela não era uma amiga de infância, era alguém que eu seguia, desde então passei a ler mais atentamente os lindos textos e reparar nas fotos deliciosas, reais e amorosas que tira.

Foi uma das pessoas que melhor me recebeu nesse mundo materno do Instagram (e também esta praticamente no topo das minhas preferidas), dessas que abriu os braços para todos meus projetos com sorriso (sem se preocupar com seguidores, falta deles ou qualquer coisa do tipo), carinho e atenção e assim que ela é, essa mulher linda, por dentro e por fora, generosa, amiga e querida! Obrigada Carol, pela entrevista e por toda confiança desde sempre, jamais esquecerei!

  1. Você precisou passar por um processo de inseminação artificial para engravidar dos seus gêmeos, como foi para você encarar essa “dificuldade”?

Durante quase 3 anos, a gente tentou engravidar, sem sucesso. Fizemos todos os exames possíveis na época, em Nova York, onde morávamos. Nada foi detectado. Neste ponto, já com um médico especialista em reprodução, esperávamos que a in vitro fosse o caminho natural para tentar alcançar nosso sonho. Eu diria que foi mais estressante tentar engravidar sem sucesso durante anos, sem saber e ver o tempo passando, do que o processo de fertilização.

  1. E a noticia de que o único embrião que havia implantado havia se dividido? O que passou na sua cabeça?

Primeiro passou pânico, e ainda olhei para o lado e vi um marido maravilhado, feliz da vida, com um sorriso de orelha a orelha. Eu estava ansiosa pelo positivo, mas achando que pelas dificuldades, seria sorte conseguir de primeira. Não estava muito propensa a acreditar que dividiria não.  mãe de gêmeos indenticos prematuros

  1. Como ficava seu interior passando por essa dificuldade inicialmente, depois essa benção dupla, estando grávida, longe da família e dos amigos, já que vivia nos EUA na época?

Eu já morava a 6 anos em Nova York e gostava da minha vida lá. Não pensávamos em voltar a morar no Brasil, então estava já emocionalmente preparada para mais uma etapa de vida. Tínhamos um grupo de amigos, a maioria também expatriada, então não estávamos necessariamente sozinhos. Claro que a família fez falta, mas mesmo eles estavam sempre presentes, ora visitando, ou nos vendo por vídeos e chamadas de Skype.

  1. Ao nascer, você contou que eles foram prematuros e precisaram ficar na UTI. Quais as principais lembranças e sentimentos que tem desses dias?

Como descobrimos o problema do cordão umbilical do Lucas, já sabíamos que eles seriam prematuros, tivemos umas boas semanas para nos preparar para isso. A tensão ficou maior quando fomos chegando perto das 25,26, porque entrávamos numa janela onde eles poderiam nascer, mas ainda eram muito pequenos e as chances de sobreviver e de não ter sequelas eram ainda bastante assustadoras. Chegamos nas 30 semanas e eles nasceram, bem mais fortes do que o esperado. A estada na UTI Neo foi um misto de impotência, susto, força, união e muito amor. Nos apegamos ao fato de que eles estavam em um hospital de ponta, rodeados de profissionais capacitados. Nós mesmos estávamos sempre juntos. Hoje, sobra a sensação de união e força que a nossa família foi englobada naquele momento e nos uniu ainda mais.

  1. Mais tarde vocês voltaram para o Brasil, como foi essa volta?

Os meninos estavam com 1 ano e meio e começamos a sentir falta da convivência deles com as famílias. Pesava para a gente que eles reconhecessem aparelhos eletrônicos como os avós. Decidimos voltar para que eles tivessem o que a gente teve quando crescemos, uma família núcleo forte e presente e nunca nos arrependemos.

  1. Quais as maiores diferenças pode perceber da maternidade nos EUA e aqui? E agora pensando que já retornou aos EUA.

A maternidade nos Estados Unidos é muito ativa, não é raro as mães pararem de trabalharem e não sofrerem muita pressão por isso. É uma maternidade bastante prática também. Mas no Brasil, temos ainda um apego pelo contato, pelas brincadeiras orgânicas, não de rua. E a alimentação infantil no Brasil tem uma tendência mais natural. Menu infantil em restaurante americano é basicamente tranqueira. No final, essa exposição a duas realidades na maternidade me ampliou a visão de uma forma que me faz pesar e escolher o que e como vou fazer minhas escolhas com eles. Todo mundo saiu ganhando com isso em casa.

  1. Do que sente mais falta nessa distância?

Da convivência diária com a família. Morávamos todos no mesmo condomínio, então tínhamos a presença constante de amos incondicional em doses cavalares, núcleos fortes de família. E ainda que hoje a gente tem bastante visita, vídeos, telefones com imagem, isso tudo é um paliativo para o contato físico.

  1. Quais as maiores vantagens que percebe em criar seus filhos ai?

Morando em Miami, eles têm acesso a um universo tão mais amplo quando a gente pensa na exposição a outras línguas e culturas. A segurança pública nos permite frequentar ambientes onde todas as classes sociais se misturam e isso enriquece a visão de mundo deles. A qualidade de vida que a gente tem e pode proporcionar a eles nos Estados Unidos vale o sacrifício.mãe de gêmeos indenticos prematuros

  1. Como ficou a rotina de casa, marido e filhos sem a ajuda que tinha no Brasil?

A gente demorou um pouco para se achar nessa nova rotina, sem a mágica da ajuda diária a que estávamos mal acostumados no Brasil. Hoje, depois de um ano da mudança, as coisas já estão encaixadas melhor. A gente divide as tarefas, tem menos expectativas sobre o estado impecável de tudo na casa, fica mais maleável com as prioridades e descobre que da para simplificar muita coisa. E por incrível que pareça, apesar da falta de ajuda e , consequentemente, o aumento de afazeres, aqui voltei a fazer exercícios físicos, coisa que não fazia desde quando engravidei.

  1. Quanto a maternidade, o que mais te surpreendeu? Sabe aquelas coisas que a gente critica, fala que não será assim mas morde a língua?

Eu achava que saberia lidar com tudo que aparecesse. Que sabia o que teria que fazer para que meus filhos fosses educados, bons e descobri que não só não sabia nada, como também não conhecia aqueles dois seres que estavam se descobrindo. Foi um aprendizado a 3, deles e meu. E até hoje, muitas vezes eu faço as coisas sem a mínima ideia de que vai dar certo, de que esta certo, mas faço porque a gente não consegue criar filho na inércia, então tem que se jogar usando o coração como guia mesmo e confiar que vai pro caminho que queremos.

  1. Olhando para sua historia como mãe, desde as tentativas, até o positivo e hoje, o que tira de maior lição?

Desde as tentativas eu descobri que não tenho controle de quase nada na vida. Que eu posso fazer planos, posso me preparar para eles, mas que tudo isso não serve para nada se eu não aceitar que coisas podem vir de formas diferentes da esperada ou programada. Eu encontrei o equilíbrio quando vi que não posso mudar muitas coisas que acontecem, mas posso escolher como reagir a elas. Quando vi que tudo pode ser visto de uma maneira mais positiva, as coisas entram numa onda de dar certo. Então, hoje eu sei que a maternidade me ensinou sobre a impotência de não poder mudar como o mundo gira, mas também sobre a nossa capacidade de saber olhar esses giros que a vida dá e tirar deles lições.

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