Entrevista: Renata Magliocca, a mamãe que escreveu um livro para sua filha!

Conheci a Renata pela voz e foi assim que a reconheci em um casamento. Já havia ouvido sua voz em um lindo vídeo de casamento na qual ela narrava a historia do casal, um dia, em outro casamento lá estava ela de santa casamenteira e ao soltar as primeiras palavras já pensei: ué, conheço essa voz.

Foi assim que descobri esse trabalho fascinante que faz conduzindo as cerimônias de casamento com textos que são verdadeiras relíquias a serem guardadas para sempre no  papel e no coração. Mais do que isso, os detalhes de percepção do casal é tão afinado que só uma bela psicóloga poderia ver.

Renata também escreveu um livro que acabou de ser lançado pela editora TIMO “1001 dias com ela” para sua filha e está aqui para contar como deixou de lado um trabalho de horas para poder ficar mais presente na vida da sua Nina e um pouco mais sobre esse seu lindo projeto que tem arrancado suspiros não só das mamães por todo Brasil!

livro para filha

Foto Carmen Fermandes

  1. Como foi a sua escolha pela área da psicologia e mais, se tornando especialista em carreiras?

Aos 12 anos, perguntei para os meus pais se era possível eu ser psiquiatra sem fazer Medicina. Venho de uma família de médicos e cuidar do outro foi sempre um valor. Na adolescência, me perdi desse caminho e fui parar no Direito pela paixão com os direitos humanos. No segundo ano, numa aula de Direito Penal, desisti. Vi que o que me movia eram as histórias de vida, as dores e as alegrias de cada um, o meu olhar era para o indivíduo. Resgatei, então, a Psicologia. E nela me achei. Sou uma apaixonada pelo comportamento humano e isso me define tão bem como ser mãe da Nina. Toda essa mudança que vivi nas minhas escolhas de carreira me fez querer apoiar outras pessoas nas suas descobertas de talentos, propósitos e na busca por um trabalho que, realmente, imprima uma marca positiva no mundo.

  1. Quando fez essa escolha, pensava em ser mãe? Se sim, havia pensado em como conciliaria isso?

Na faculdade de Psicologia, falamos muito do desenvolvimento do bebê, do vínculo com a mãe, da importância da presença e do afeto das teias familiares. Então, sim, isso era uma reflexão recorrente: que mãe é essa que eu quero ser? Mas, curiosamente, também nunca achei que esse era o único caminho, se eu não fosse mãe, continuaria completa. Quando escolhi trabalhar em uma consultoria de carreira, aí sim, meu foco foi ter mais integração entre vida pessoal e profissional, de ter mais autonomia e flexibilidade de agenda. Não só pela Nina que ainda não estava nos meus planos, mas pela família que eu sonhava em ter, pela vida que eu queria viver.

  1. Em que momento decidiu que seria a hora de pisar no freio, diminuindo o tempo de trabalho para se dedicar a sua filha?

Trabalho em uma empresa com um time massivamente feminino, vi várias colegas vivendo o dilema maternidade e carreira. E foi por conhecer essas histórias que decidi que não queria morar nesses extremos, ou maternidade ou carreira, queria tentar integrar as minhas várias versões e integrar significa, sim, abrir mão de muitas coisas como salário, cargo, elogios, vínculos etc. Grávida, comecei a estudar sobre amamentação, recordar meus estudos sobre vínculo, criação com apego e foi aí que comecei a repensar meu modelo de trabalho, listar o que era de fato prioritário e importante para mim, mas foi só com o nascimento da Nina, na construção dessa relação, que eu entendi o que já era semente em mim. Eu percebi que não era por ela, era por mim, essa era a mãe que eu sabia ser, a que estava ali na intimidade, no detalhe, no tédio e no prazer da rotina. Não sei se a Nina vai ser mais ou menos feliz por isso, mas eu só sei ser assim: não é quantidade de horas, não é qualidade do tempo, é intimidade. E isso inclui, claro, um vai e vem, mas pautado por nós e não pela pressão social para termos que seguir uma trilha assim ou assado. Essa foi a nossa trilha.

  1. Como começou o seu interesse pela escrita?

Aprendi a escrever antes de falar, como conta a minha mãe. Sou neta de um avô mineiro contador de histórias e de um avô paulista poeta. Acho que me vi sem saídas. A leitura, e depois a escrita, sempre foi meu mundo, como eu me entendia, entendia os outros e me expressava. Ganhei concursos de redação na escola. Escrevi cartões de Natal por muitos anos antes de existir as redes sociais. No colegial fiz, durante dois anos, um estágio com o jornalista Gilberto Dimenstein e foi ele quem me disse que eu não precisava ser jornalista para viver essa paixão pela escrita. Montei meu blog, ainda adolescente, para viver, de alguma forma, um amor platônico por um vizinho, curiosamente como a vida é, foi esse blog que me trouxe tão bons amigos e o meu marido. Vinícius me conheceu pela escrita, ou seja, sou muito grata a ela.

  1. E quando começou a usar a escrita para contar sobre a história das pessoas?

Acho que sempre fiz isso pelos testimonials de Orkut, posts de Facebook, cartões de aniversário. Isso virou profissão quando tinha que escrever relatórios ou anamneses sobre clientes pela atuação como psicóloga. E, mais recentemente, com as cartas para a Nina isso virou um ritual, um hábito. Que ganhou ainda mais contorno e saiu das quatro paredes da minha família quando comecei a ser chamada para celebrar casamentos, contando as histórias de amor e encontro dos casais.

livro para filha

Foto Tracy Figg

  1. Você acabou de lançar um livro para sua filha: “1001 dias com ela!”. Como surgiu esse livro?

Quando eu nasci, um tio avô querido desenhou à mão meu mapa astral. Lá em mil novecentos e bolinha. Achei aquilo tão precioso que prometi que se um dia tivesse filhos, faria o mesmo. Nina chorou agudo e corri para fazer o desenho. Mal comecei e estava lá uma ausência de mãe. Sei que isso pode ter muitas interpretações, mas o medo de ser ausente me fez repensar toda a minha presença. Não só com a Nina. Com todas essas mudanças, crie um e-mail para a Nina e comecei a enviar todo dia 29 uma carta para ela um dia poder ler e saber de tudo que vivemos juntas. Acho que o medo de ser ausente me fez pensar como seria quando ela estivesse na adolescência ou se um dia fosse mãe e não tivesse com quem conversar sobre a vida. Os e-mails eram a minha forma de deixar conselhos, reflexões que eu gostaria que ela levasse com ela, independentemente de como fossem as suas próprias escolhas. Um dia comentei sobre essa caixa de e-mail com uma amiga e ela me pediu para ler. Ela me mandou uma resposta que dizia: “Essas cartas não são valiosas apenas para a Nina. É uma missão sua compartilhar com mais pessoas. Você conseguiu unir sua veia poeta com seu conhecimento de psicóloga e seu amor de mãe. Isso precisa ir além dessa caixa de entrada”. Passei, então, a publicá-las no Facebook na minha página pessoal e elas foram ganhando ainda mais sentido quando vi toda uma rede repensando a sua própria presença e me cobrando para ir ainda mais além e criar uma página só para a publicação dessas cartas, para que outras pessoas que não nos conheciam pudessem chegar até elas.

Quando estávamos nos aproximando dos, então, 1001 dias com ela – que foi o nome que dei para a página – achei que seria uma celebração importante, unir em um financiamento coletivo aquelas pessoas que tanto me apoiaram e me incentivaram para a publicação do livro com as 29 cartas para a Nina (29 porque é o dia que ela nasceu). Escolhi esse caminho porque entendia que o principal não era a venda ou o número de cópias impressas, mas toda a história que a Nina carregaria sobre seu aniversário de 2 anos: um livro feito de memórias. E esse é o tipo de presente que não se dá sozinho. É preciso um tanto de gente. E, no final, foram 129 pessoas (!!!) em 29 dias que contribuíram e tornaram possível não só a publicação do livro, mas também a doação de 129 livros para pais participantes de rodas de gestante e pós-parto. A minha ideia é mesmo que a Nina aprenda que a gente é feito desse mar de gente e que pedir ajuda e tocar a vida das pessoas com aquilo que temos de mais honesto em nós é a melhor forma de não sermos ausentes da nossa própria história.

  1. Como você acha que essas histórias e conselhos que o livro contam irão impactar sua filha na vida dela?

A minha ideia é mesmo que a Nina aprenda que a gente é feito desse mar de gente e que pedir ajuda e tocar a vida das pessoas com aquilo que temos de mais honesto em nós é a melhor forma de não sermos ausentes da nossa própria história. Quero que a Nina saiba de tudo que vivi e aprendi ao lado dela, mesmo nesses momentos que a memória dela não vai lembrar, mas tudo nela vai dizer. Conhecer a nossa própria história, da onde viemos, quem são as pessoas que marcaram a nossa história para mim é fundamental. A herança que quero deixar para Nina é autoconhecimento e confiança de que ela pode ser ela e de que quando a gente faz isso, aprende a respeitar e confiar no outro.

mãe escritora

Foto Laís Gouvêa

  1. E a vida de outras mães e filhas?

Nem imagina o prazer que é eu saber que a minha relação com a Nina fez outros pais e famílias (porque espero que vá muito além de mães e filhas) repensarem, relembrarem, compartilharem suas memórias, afetos, medos etc. É a tal aldeia que a gente fala tanto. É como se eu desse a mão para outras pessoas que eu não alcançaria se não fosse pelo livro existir, é como se elas me desse a mão e ajudassem essa jornada da paternidade ser menos solitária e pesada.

  1. Hoje, quando vê as escolhas que fez no passado de maternidade, carreira (deixando o trabalho pesado para trás, ficando mais tempo com sua filha e etc) e o caminho que isso te levou, como você enxerga a importância que essas decisões terão na vida de sua filha?

Trabalho pesado ficou para trás de jeito nenhum…hahaha…Eu só estou mais eficiente e mais focada naquilo que eu de fato posso contribuir e deixar a minha marca. Eu trabalhando lá 14 horas por dia, me envolvia em tudo e acabava fazendo sombra para outros talentos, pessoas, respostas. Foi tão bom, abriu portas para outras pessoas e para mim também. Eu nunca poderia ter escrito um livro, ser uma “contadora de causo de amô” se não fossem essas novas escolhas que a maternidade me trouxe. Sim, eu aprendi a gerir melhor meu tempo, a me conhecer melhor, a escolher melhor as lutas que eu entro. Obrigada por isso, Nina! Não sei se a Nina será mais feliz pelas minhas escolhas, mas eu tenho certeza que todas as relações para serem fortes e de confiança precisam ter intimidade, momentos bons e ruins juntos e escolhi viver isso com ela.

 Daria algum conselho como mãe e psicóloga para mulheres que se encontram nessa mesma encruzilhada: carreira, dinheiro X maternidade ativa o que diria?

Eu vou colocar o trecho de uma das cartas que escrevi para a Nina, quem sabe ali tenha algum conselho, porque sei que cada mulher e família têm suas escolhas e não existe um jeito certo, existe um jeito de você mãe estar mais inteira e feliz com a sua vida (e vida inclui carreira e maternidade). Se você achar que não dá na sua empresa, que o mundo não aceita, sugiro que tente, mostre outros casos de sucesso, busque números de eficiência e liderança feminina, fale com quem conseguiu, mas tente, quem sabe assim a gente não vai tornando isso mais comum e não só para “poucas”. Inclua sua rede de apoio, se possível, construa com o pai um papel ativo de igualdade de tarefas, a relação de todos só tende a crescer com isso. Sei que não é simples e que não depende só da mãe, mas acho que temos que tentar se é assim que desejamos um mundo melhor para os nossos filhos.

 “Não, filhota, março vem e o tempo ainda vai. Ô se vai. Sua mãe tem que ir. E isso dói, mas eu preciso descobrir se sobrou um mundo lá fora pra mim. Eu volto. E com histórias pra te contar porque sinto, Nina, que meu trabalho agora é conseguir estar inteira pra te apoiar. E pra isso, tem mãe que vai. Outras escolhem e podem ficar. O que não dá, filha, é não ter com quem contar. Há quem diga que vai doer mais em mim do que em você, mas isso é distração pra gente não convidar o outro a ajudar. Nunca vou ter certeza do que é melhor pra você, mas eu acredito que é no ir e vir que a gente vai se encontrar.”

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