Relato de parto domiciliar no Canadá!

Estudei com a Flavia no colégio, porém já não tínhamos muito contato! Ao ver que sua menina havia nascido (no Canadá, onde ela reside) fui dar os parabéns. Tamanha minha surpresa quando ela disse que meu relato a ajudou muito no parto dela e claro que tive que pedir que ela desse seu relato também!

Adoro relatos fora do país, pois passamos a entender um pouco da nossa visão de parto tão diferente por aqui. Porém, como a Flávia buscou uma equipe humanizada logo no começo da gestação, não sabia me dizer exatamente como era normalmente e fui pesquisar, só para vocês saberem.

Normalmente, o médico que atende seu pré-natal não te atende no parto, isso porque o parto é feito pelo plantonista ou obstetriz no hospital. O normal lá é o parto normal não há escolha sobre isso normalmente e as mulheres em geral tem um certo medo da cirurgia (porém as taxas de cesariana estão crescendo e passaram de 19% em 1997 a 27% em 2013, lembrando que a recomendação da OMS é de 10 a 15%). Porém, não é exatamente porque ele é normal que é humanizado ou natural. As obstetrizes lá tem muito mais valor e responsabilidades, podem até indicar remédios  e como aqui, somente elas tem autorização de fazer um parto em casa. Apesar de serem precavidos e pedirem os exames necessários, faz-se umas 3 ou 4 ultrassons e não todo mês.

Para quem quer um parto humanizado, hospitalar ou domiciliar, tem apoio do governo, que cobre as despesas todas!

Dito isso, vamos a esse parto humanizado domiciliar tão lindo?

“E assim nasceu a nossa pequena Isabella

 Há anos venho cultivando o hábito e o prazer de me alimentar da forma mais saudável possível. Graduar-me no curso de Nutrição Holística ajudou-me a compreender a importância que os alimentos têm na formação e manutenção da boa saúde. Portanto, ao engravidar segui nesta mesma linha natural de raciocínio e sonhei em ter o chamado parto humanizado, ou seja, aquele cujos acompanhamentos mensais são feitos não por médicos obstetras, mas por parteiras treinadas e especializadas em fazer partos. No parto humanizado o parto normal é o resultado final e este ocorre praticamente sem nenhuma intervenção, respeitando o processo natural. Então este era o meu maior desejo, ter um parto normal, sem intervenção médica, sem anestesia e sem medicamentos.gestação e parto no canadá

Para que o meu sonho pudesse se realizar, durante a gravidez procurei me preparar para o momento do nascimento lendo muitos relatos de partos naturais e fazendo mentalizações diárias. Além do que tomei as devidas providências para que o parto ocorresse no “Ottawa Birth Centre” – centro especializado em partos para mulheres com gravidez sem riscos, admitidas e acompanhadas por parteiras, localizado em Ottawa, no Canadá, onde resido há 17 anos.

 No dia 22 de março, 12 dias após a data prevista para o nascimento da nossa pequena Bellinha, acordei às 03h46 da manhã com cólica. Era como se fosse uma cólica menstrual, um pouco desagradável.  Levantei da cama em silêncio, para não acordar meu marido Kevin, pois se este fosse mesmo o início do trabalho de parto, melhor mesmo seria ele descansar ao máximo – pensei animada e desci as escadas da casa sobrado. Tomei o café da manhã e tentei relaxar. Duas horas depois os sintomas haviam desaparecido completamente, para o meu total desapontamento. Ora, dores como aquelas nunca haviam sido tão bem-vindas e esperadas, mas não haviam durado muito e passei a manhã me sentindo ótima. No entanto, mesmo decepcionada, continuei firme com a idéia de que logo aquele quadro mudaria e as dores retornariam, anunciando a chegada da nossa tão esperada “Baby Berry”, apelido carinhoso que a nossa Isabella recebera logo no início da gestação, enquanto não sabíamos o sexo do bebê.

 As onze horas da manhã tínhamos marcada mais uma consulta de praxe com as parteiras e, mais uma vez, elas induziram o parto através do descolamento das membranas, procedimento que já havia sido feito uma semana antes. Assim, com as contrações que sentira logo cedo associadas ao procedimento de indução, as parteiras avaliaram que até o fim daquele mesmo dia ou no mais tardar na manhã seguinte a nossa princesinha nasceria. Então nos aconselharam a voltar para casa, descansar e aguardar as contrações que deveriam retornar à noite.

 Para o meu “alívio” e felicidade, após o almoço, às 14 h as contrações já haviam voltado e, agora, a sensação era bem diferente das cólicas sentidas durante a madrugada. Estas eram bem mais intensas e fortes. Ah meu Deus, acho que agora é pra valer – pensei animada e ao mesmo tempo um pouco apreensiva. Então decidimos cronometrar as contrações que ocorriam com um intervalo de 3 minutos entre uma e outra e duravam um minuto.

 Às 15h ligamos para as parteiras e elas nos recomendaram que eu entrasse na banheira com água morna para ajudar com a dor e também para relaxar. Tranquilizei-me ao saber que estavam a caminho. Uma hora depois, quando elas chegaram, eu ainda estava dentro da banheira e as contrações tinham aumentado bastante de intensidade. Então, às 17h, saí da banheira para que as parteiras avaliassem a evolução do trabalho de parto. “Ai que ótimo – pensei –  agora é a reta final! Logo, logo, Bellinha estará aqui conosco e eu estarei livre dessas dores.” Sim, exatamente, nessas alturas as dores estavam tão fortes que não eram, assim, tão bem-vindas!!!! Depois de me examinar as parteiras recomendaram que eu continuasse relaxando. O trabalho de parto estava evoluindo bem, mas, de acordo com elas, ainda iria demorar até o nascimento. Pediram para que ligássemos mais tarde, quando as contrações ficassem mais fortes e foram embora. Incrédula, vi elas descerem as escadas e sumirem…“O quê, como assim apenas 3cm de dilatação? Mas eu pensei que a hora do nascimento já havia chegado – argumentei em voz baixa para mim mesma! Esperar para que as contrações fiquem ainda mais fortes, não é possível – pensei contrariada!! A minha vontade era levantar correndo daquela cama e ir buscar as parteiras de volta. “Ei… quão mais fortes, olha não vai dar!!!!”gravidez e parto no canada

 E elas estavam certas, as dores ficaram realmente mais fortes, muito mais! Eu e meu marido permanecemos no nosso quarto o tempo todo, e enquanto eu procurava relaxar ao máximo, tentando deixar meu corpo fazer o que era preciso, ele aguardava sereno, com sua habitual calma.  Às 19h eu não aguentava mais e não conseguia imaginar o quanto mais teria que suportar aquelas dores até a hora do nascimento. “Ah meu Deus, parto humanizado, humanizado pra quem – perguntei aborrecida pra mim mesma? Sim, eu comecei a questionar a opção de ter o bebê no centro especializado para partos e pedi ao Kevin que eu preferia a anestesia peridural – Ah meu Deus, pobre marido, como se naquele momento ele pudesse me aplicar uma anestesia. Embora ele seja oficial das Forças Armadas Canadenses os treinamentos não incluem a prática de partos ou muito menos a aplicação de anestésicos.

 Naquele momento de dor intensa o mais complicado era imaginar  como eu conseguiria chegar a um hospital. “Não sou capaz de dar nem um passo, que fará descer as escadas da minha casa, entrar num carro e ir para o centro de nascimentos! Jesus, não aguentarei- desabafei! ”. Então pedi ao Kevin que ligasse para as parteiras para ver como elas podiam nos ajudar. Eram 19h20 quando, no viva voz, elas tentaram avaliar a intensidade das minhas dores e procuraram entender o que eu desejava. “Ora o que eu desejo é me livrar dessas dores, não parece óbvio – resmunguei indignada!!!”. Nesse momento senti meu corpo querer fazer força para expulsar.

– Sinto vontade de fazer força, parece que a cabecinha dela está prestes a sair! – Gritei para as parteiras ao telefone.

– Não tenha medo de fazer força – elas responderam – provavelmente é a bolsa prestes a estourar.

 Em seguida elas encerram a ligação dizendo que estavam a caminho. No entanto, disseram que levariam 45 minutos. “O quê, 45 minutos eu não vou aguentar. Esse bebê vai nascer em casa mesmo e eu não vou remar contra a mãe natureza – falei para o meu marido! ” Antes de desligarem o telefone ainda ouvi quando as parteiras disseram ao Kevin para ligar para a emergência 911.

 – O que eu faço, ela disse para eu ligar para 911? – Ele indagou em dúvida.

– Liga logo, esse bebê vai nascer é agora!!!! – Respondi aflita sentindo que o momento havia chegado. Embora um pouco confusa, sem saber definir bem a vontade que sentia, talvez de urinar, evacuar… bem, uma coisa era certa: eu precisava fazer força e era de expulsão!!! Em pé sob o vaso sanitário eram 19h40  quando o Kevin ligou para a emergência:

 – Minha esposa está dando luz e nós estamos os dois sozinhos em casa, o que devemos fazer? – ele indagou aflito. Nesse momento a atendente começou a fazer uma série de perguntas e disse que a ambulância estava à três quarteirões de casa. “Três quarteirões? – Minha mente repetiu a frase como se fosse um eco… não havia mais tempo.” Durante a gravidez eu havia lido muitas estórias sobre este momento quase surreal, e embora fosse marinheira de primeira viagem, estava certa de que a minha princesa estava muito próxima de chegar a este mundo. “Seja benvinda querida – pensei comigo mesma!”gestação no canadá

 – Kevin, Kevin, estou sentindo o círculo de fogo – Gritei! (Denominação dada quando o bebê está coroando, ou seja, começando a sair.) – Então continuei, Kevin, Kevin, não é possível, tem alguma coisa errada, estou sentindo a cabeça… sinto a cabeça… – estava desesperada, querendo me certificar de que não estava enganada.

– Ele olhou. – Oh, meu Deus – exclamou devagar e admirado!

– O que foi? Perguntei aflita querendo saber o que ele vira.

– Ela está vindo querida, calma, a cabecinha já está metade do lado de fora!!!! – Ele falou ao mesmo tempo fascinado e apreensivo. Sabíamos que ali não havia mais jeito, tínhamos que fazer e concluir o que a mãe natureza iniciara. Cuidadosamente, ele amparou a cabecinha dela e percebeu que a bolsa ainda estava intacta, então perguntou ao atendimento que continuava na linha conosco.

– A bolsa ainda não se rompeu, devo estourar com a mão?

– Um momento, vamos verificar. – A voz respondeu calmamente do outro lado.

“Ora bolas essa não, eu mal podia acreditar naquela resposta! Vou verificar? Mas que tipo de ajuda é essa? Peço para meu bebê esperar um pouquinho também? – Pensei contrariada.”

– Sim, estoura! – A voz voltou rápido ao telefone.

Até esse momento eu continuava em pé acima do vaso sanitário. Então meu marido pediu para que eu abaixasse um pouco, fora do vaso, e ele rompeu a bolsa com a unha. Nesse momento a cabecinha acabou de sair junto com a água. Então aguardamos a próxima contração, alguns poucos segundos que pareceram uma eternidade, pois sabíamos que o restante do corpo viria em seguida. Quando a contração reiniciou ele olhou para mim e disse com carinho:

– Vamos querida, mais uma forcinha! Fiz apenas mais duas forças e o milagre de nossas vidas veio ao mundo, às 19h44 do dia 22 de março, 2017. Emocionada e feliz eu gritava:

– O bebê nasceu! Bellinha!!! Oh meu amor!!  Meu marido amparou-a com cuidado e ela chorou imediatamente. – Quanta alegria! Ainda orientado pelo atendimento o Kevin a colocou sobre o meu peito e saiu para ir buscar uma toalha para secar nosso bebê e cobrir a cabecinha dela.

 Três minutos depois, quando o primeiro paramédico chegou, eu ainda estava em pé no banheiro coberto por uma mistura de água e sangue do nascimento, segurando nossa princesa no colo. Confesso que quando ele me viu estava mais em choque do que eu!

 Então ele me conduziu de volta ao quarto e me colocou na cama com a Bellinha deitadinha sobre o meu peito. Tirou minha pressão e prosseguiu com os primeiros exames. Em seguida chegou a parteira de plantão. Havíamos conhecido a Kim há bem pouco tempo e tínhamos gostado muito dela. Então ela assumiu os procedimentos e o paramédico continuou dando apoio moral. Ela me ajudou e logo a placenta saiu.

 Mais uns 5 minutos se passaram e a ambulância chegou! O nosso quarto mais parecia mais uma festa particular de paramédicos. Mas eles rapidamente se despediram e saíram, pois agora os cuidados médicos estavam na mão da Kim. Por último, mais ou menos dez minutos depois, chegou a minha parteira com a acompanhante.

 Daí em diante elas assumiram os cuidados de tudo, inclusive a limpeza do banheiro. Em seguida me colocaram no banho, depois da Belinha ter mamado e quando tudo voltou ao normal, por volta das 23h30 elas foram embora. Voltamos a ficar apenas nós três, eu a Bellinha e o Kevin. Curtimos o momento, falamos com nossos pais, mas  era hora de dormir e descansar!

 Palavras não podem expressar a experiência rica e emocionante que foi dar à luz em casa. Sou extremamente grata por tudo ter ocorrido bem. Para quem sonhou em ter um parto tranquilo e humanizado dentro dos moldes atuais, sem interferência médico hospitalar, eu não podia esperar por nada melhor. Senti-me feliz e tranquila por estar em casa, na minha cama, no meu quarto, descansando com o meu marido querido, e com a nossa pimpolha Isabella!

 OBS: Gostaria de esclarecer que muito embora toda essa experiência tenha sido muito feliz eu não incentivo o parto em casa sem a presença das parteiras. Pois, claro, acidentes acontecem e a presença de um profissional da área é imprescindível.”

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