Relato de Parto no Japão

Quem me acompanha no Instagram sabe que falo muito sobre o parto e sua importância, em um dos posts, a Sylvia comentou contando brevemente sobre sua experiência de parto no Japão, onde ela mora! Achei muito legal ter alguém contando um pouco da experiência de parto fora do Brasil e pedi que ela me mandasse seu relato. Lógico que isso não significa que lá seja melhor, ou mais certo, ou mais humanizado e etc, lembrando que há problemas com parto em grande parte dos países! É só uma experiência diferente de um povo totalmente diferente! Espero que gostem!

“Muito se fala, mas pouco se sabe sobre o parto até você ter a sua própria experiência. E hoje vou começar a contar a minha lá do comecinho…
Antes mesmo de ficar grávida, já tinha ouvido muita coisa sobre os partos no Japão que me deixavam de cabelos em pé! E quando recebemos o positivo, de cara já decidi que eu não queria “sofrer” no meu parto.relato parto Japão
Depois de uma conversa e outra, minha madrasta (que teve seu primeiro filho no Japão) me explicou várias coisas e me alertou sobre a cesárea japonesa. Cesárea aqui no Japão é uma coisa meio antiquada, nada convencional, que muitos médicos nem sabem como fazer direito. Muitos cortes são feitos na vertical(!), que vai do umbigo até a pélvis mais ou menos, e depois grampeado, ao invés de costurar. A cicatriz fica horrível, claro!
Então fiquei com o pé atrás…mas a ideia do parto normal também não era legal, pois ouvi relatos de mulheres que ficaram até 2 dias em trabalho de parto, sofrendo, sentindo muitas dores e tals.
Meu marido comprou um livro que se chama “Gravidez no Japão”. Escrito por um ginecologista brasileiro que durante um período trabalhou em hospitais no Japão. Ele explica muito bem a diferença nas culturas, o porque os médicos deixam as mães “sofrerem” por tanto tempo, entre muitas outras coisas.
Após ler algumas páginas entendi que os médicos se preocupam muito com a evolução do parto, tanto para a mãe quanto para o bebê. Desde quando a mãe da entrada em trabalho de parto, ela é conectada a uma máquina que monitora suas contrações, respiração e batimentos cardíacos, do mesmo jeito que estão monitorando também a respiração e batimentos do bebê. Por esse monitoramento eles sabem o momento exato em que o bebê vai nascer. A maior preocupação sempre é com a saúde do bebê!
Assim que eu li a frase:”se o parto se chama normal, pra quê complicar?!”, mudei completamente de ideia, e a partir daí o parto normal era meu objetivo! Ainda mais porque a clínica em que eu desejei que a Airi nascesse só faz parto normal, se for cesárea será indicada a outro hospital.

Mas decisão tomada, depois foi trabalhar pra que tudo ocorresse como eu queria. Depois de decidir sobre o parto normal, algumas preocupações como o meu peso e a posição do bebê eram constantes nas consultas.
Não engordar muito era fundamental, tanto para o tamanho do bebê, já que por ser o primeiro era melhor que não fosse tão grande, e também por conta da saúde, pressão, diabetes e tals…Engordei 11kgs!! Fui parar nos 58kg na gravidez! Mas não cheguei a ter puxões de orelha pois a bebê estava dentro do esperado.
Quanto a posição do bebê…bem…Airi sempre foi muito elétrica! Não parava de se mexer! Então aos 7 meses ela ainda não estava encaixada, e o médico estava preocupado com isso. Foi então que fiz um exercício bem simples, durante uma semana, e então na semana seguinte já estava encaixadinha, só esperando a hora chegar.
O sexo ficamos sabendo com uns 5 meses mais ou menos, mas os médicos do Japão não costumam revelar o sexo antes do nascimento pra não correr o risco de errar é ganhar um processo por conta disso. Eu não queria saber o sexo, mas meu marido é minha mãe insistiram bastante e o médico sempre falava que “achava” ser uma menina. Apesar de ter dito isso, quando ela nasceu foi meio que surpresa mesmo! Rs

A data prevista do parto da Airi era dia 29 de julho. Mas no último mês não tivemos uma evolução expressiva. As contrações ainda eram bem suaves, uma vez a cada uma hora em média, e dilatação estava longe de acontecer. Sempre me mantive ativa na gestação, fazia caminhadas e trabalhei até duas semanas antes de ela nascer, mas nada contribuiu para o trabalho de parto.
Nossas consultas eram aos sábados. Dia 27 tivemos uma consulta e nada da Airi colaborar…nada de dilatação e contrações bem fora de ritmo.
O dia 29 se passou…e nada do parto acontecer, mas não me preocupei e achei melhor esperar a hora chegar.
Na quarta-feira, dia 31, tivemos mais uma consulta…apenas 1 cm de dilatação e nada que demonstrasse que entraríamos em trabalho de parto.
Foi então que o médico decidiu que faríamos um parto normal induzido. Eu seria internada no próximo domingo, seria introduzido um aparelho para dilatar aos poucos e na segunda-feira, quando iria completar 41 semanas, seria colocado o soro para aumentar as contrações e assim ela nascer.
Eu fiquei um tanto triste com essa notícia, pois queria muito que as coisas acontecessem de forma mais natural possível. Mas a saúde dela era acima de tudo e então me conformei com o plano do médico.
Antes de ir embora tive que fazer o exame de Doppler. A doula estava do meu lado analisando tudo, e vendo o ritmo das contrações ela me perguntou desde quando estava daquele jeito. Naquele dia eu tinha acordado com mais contrações do que o normal, mas não dei muita importância. Foi então que ela me encheu de esperança! Disse que era para eu ir pra casa fazer minhas coisas, dar uma caminhada e que possivelmente não chegaria até domingo.
Foi o que eu fiz!! E não é que ela acertou?!!! Doula sabe das coisas né?! E então, naquela noite fui dormir cedo como sempre, mas tive que acordar por volta de 00:30h pois as contrações haviam aumentado tanto que não me deixava dormir!!! E começamos nosso trabalho de parto!relato parto Japão

Apesar de ser só o começo das contrações, doía muito, até que meu marido percebeu e acordou no desespero!
Eu queria esperar em casa até não dar mais, só que o papis já quis ligar na maternidade, pois já estávamos com contrações a cada 15 minutos.
E então fomos pra clínica! Era por volta de 3:00h da manhã, talvez…não me recordo das horas de nada que aconteceu, minha cabeça não funciona muito bem!rs
Chegando na clínica, a plantonista veio me examinar, e mesmo sentindo aquelas dores todas ainda tinha 1cm de dilatação!!! Não tinha mudado nada do dia anterior.
Achei que ela ia me mandar pra casa, mas nos levou para um quarto e de lá não saímos mais.
Era um quarto bem normal, parecia de hotel, a não ser pelos aparelhos do lado.
Logo que entramos já fui conectada para saber das contrações, respirações minha e do bebê e dos batimentos da Airi.
As horas foram passando, veio o café da manhã e eu não tinha vontade nenhuma de comer. As dores eram muito fortes, mas passavam rápido. Mas me fazia perder a concentração na respiração, o que me atrapalhou muito no trabalho de parto.
Apesar das contrações já serem bem próximas e doloridas, a dilatação ia devagar, bem devagar…em média 1 cm por hora. Aí eu nem olhava no relógio pra não desanimar!
E lentamente fomos seguindo a caminho do parto…

Conforme as horas passavam, as contrações aumentavam! Eu me segurava na lateral da cama a cada dor sentida, prendia a respiração na intenção de que a dor fosse passar mais rápido, um velho costume meu, mas isso atrapalhava na respiração da Airi. Sempre que uma contração estava por vir eu já sabia, então pedia para o meu marido ou a parteira fazerem a pressão no anus pra aliviar as dores(no Brasil ninguém sabe disso, mas ajuda muito, muito mesmo na dor!). Nessa hora meu marido sofria bastante! Eu só sabia gritar com ele falando “mais forte”! Mesmo ele falando que fazia o máximo que podia, eu pedia pra ele se esforçar mais e mais. Quando era a parteira que fazia a dor passava mais rápido. Mas além de me ajudar assim, ela precisava pedir pra que eu me concentrasse na respiração. Muitas vezes ela me puxava pelo braço pedindo pra respirar como ela. Eu ficava muito brava, mas sabia que era assim que tinha que ser. Mas era muito difícil respirar normal sentindo aquela cólica fortíssima!
A cada hora foi ficando mais e mais complicado. Eu estava cansada, não dormia, não comia e não respirava direito.
O médico fez um furo pra bolsa estourar, na intenção de adiantar as coisas. Nessa hora tive muita vontade de ir ao banheiro, fiquei lá por um tempo, e quando voltei veio a contração. Fiquei em pé ao lado da cama, aí na hora que agachei a bolsa começou a vazar. Então me animei, achei que logo ela ia nascer, mas não foi bem assim…
Precisamos de 10cm de dilatação, mas parecia uma eternidade chegar até lá! Depois que a bolsa estourou vieram me examinar, tinha uns 5cm. Aí animei de novo! Depois dos 5cm começa a ir mais rápido, pelo menos em teoria. Mas depois disso as contrações começam a vir mais rápido também! Vinha bem forte, eu aguentava, passava, e antes de descansar já vinha de novo. O ritmo começou a pesar muito! Colocaram oxigênio em mim, mas de nada adiantou. Sem descansar eu não conseguia respirar. Aí a coisa ficou feia!! Airi também já não respirava tão bem por minha causa.relato parto Japão

Foi então que o médico veio falar com p meu marido. Disse que eu não estava mais conseguindo acompanhar o ritmo, já estava fazendo mal para o bebê, e por isso teria que colocar no soro pra adiantar o nascimento. Era por volta das 14:30h. Meu marido me explicou, mas eu não conseguia raciocinar direito. Ele então assinou um papel permitindo que fosse feito dessa forma.
Então as 15:00h colocaram o soro. Depois disso…bem, depois disso, meu Deus!!! Quanta dor! Sem tempo de pensar! Foi ficando muito forte e cada vez mais próximo entre uma contração e outra! E em pouquíssimo tempo passamos de 7cm para os tão sonhados 10cm de dilatação!
Depois de me examinarem pediram para o meu marido se retirar por uns minutos que eu iria ser preparada para o parto. Aí levei um susto! O quarto em que eu estava, que parecia um quarto normal, foi mudado completamente! As luzes foram diminuídas, outras acesas em diferentes pontos, a cama começou a tomar forma, minhas pernas foram subindo e de repente eu já estava posicionada para o parto. Pediram para o meu marido voltar. Ele ficou ao meu lado direito, a doula do lado esquerdo, o médico e a parteira na minha frente e uma pediatra no canto do quarto.
E então começamos…

Fiquei com o tronco meio elevado, mas não sentada. A doula pediu que eu fizesse força quando ela pedisse, e falou que tudo ia dar certo. Pediu pra não gritar ou coisa do tipo, a fim de poupar energia para o parto. Eu concordei e começamos!
Por incrível que pareça eu não estava ansiosa, não sentia medo, sentia uma coisa boa dentro de mim!
A doula pediu pra fazer força, como se fosse fazer coco, e eu então eu fazia até ela mandar eu parar. Fiz assim uma vez…duas vezes…aí ela disse que tava vindo! Mais uma vez que tá chegando, ela disse, fiz força mais uma vez. Aí meu marido olhou, viu que a cabecinha estava saindo mesmo, mas depois não quis olhar mais.

O médico fez 1 pique de cada lado, e foi necessário fazer força só mais uma vez e…Airi nasceu!!!
Assim que tiraram ela de dentro de mim já colocaram era em cima da minha barriga! Perguntaram pro meu marido se ele queria cortar o cordão umbilical, mas ele não quis. E enquanto eu olhava pra ela, chorando, foram limpando o mais grosso, mas só depois de alguns minutos é que tiraram ela de mim. Nesse tempo eu pude passar a mao nela, pegar na mãozinha, ficamos observando pra ver se era perfeitinha. Foi mágico!!! Enquanto eu estava olhando pra ela a placenta se foi, eu nem senti! O médico me deu dois pontos, que também não senti. As dores?! Que dores?!!! Desapareceram no mesmo instante em que ela nasceu! Não senti mais nada! Absolutamente nada de dor!
Depois que Airi foi examinada, devolveram ela pros meus braços. Colocaram uma bolsa de água gelada em cima da minha barriga, e ali ficamos, nós 3

A parteira veio me ajudar a dar de mama pela primeira vez, mas Airi não estava muito a fim, ela só queria olhar, observava tudo à sua volta, com os olhos bem arregalados!
Permaneci por uma hora na cama depois do parto. Então falaram que eu já poderia ir pro quarto aonde ficaria internada. Colocaram a Airi no bercinho, eu desci da cama lentamente e fui caminhando até o meu quarto, andando normalmente, sem ajuda nenhuma e ainda empurrava, muito orgulhosa, o bercinho com a minha filha!

Depois de ir para o quarto eu tomei banho sozinha, lavei até os cabelos(nem podia tomar banho ainda)e jantei normalmente!

Durante alguns dias eu contei como foi a minha experiência com o parto normal. A minha intenção era mostrar que a minha história foi diferente de muitas outras que já li e ouvi. Cada parto é único, e você nunca poderá ao menos imaginar como vai acontecer. O meu foi bem diferente de como eu pensava…mas no bom sentido. Foi rápido, e dolorido mesmo só foram as contrações, pois o parto em si não é doloroso não, pelo menos não foi no meu caso.
A gente nunca pode se basear nas coisas que as pessoas falam por aí, tenha em mente que Deus jamais iria dar o poder de conceber uma vida de você não fosse capaz. Foi assim que sempre pensei, e assim que tudo terminou vi que Deus sabe exatamente o que faz no tempo que as coisas realmente devem acontecer.
Não sou contra a cesárea, mas acho que deve ser feita quando realmente necessária. Não acho certo marcar uma data “especial” para o bebê nascer, pior ainda se achar que aquele dia será mais conveniente.”

PS da Lily 1: Muitos países proíbem que as mães saibam do sexo do bebê, isso acontece em países que os pais costumam ter preferência por um dos sexos e saber antes da hora gera muitos abortos.

PS da Lily 2: A episotomia que a Sylvia relata como 1 pique de cada lado já é comprovada que só há necessidade em alguns (poucos) casos, mas no Brasil é prática comum no parto normal. Infelizmente.

Gostaram de conhecer um pouco da prática no Japão! EU amei!!! Obrigada Sylvia por seu depoimento! Agradeço por ter aberto seu coração e sua historia comigo

Beijos

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